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O Poder de poder e a realização do poder através da Comunicação Não-Violenta

Sexta-feira, 06 de setembro de 2019

Ontem, facilitando uma Prática Meditativa, após um exercício proposto entramos na fase de partilha e ouvi de uma participante sobre sua experiência: “Eu fiz, ninguém disse que não podia. Eu fiz.”

 

Essa frase ganhou ressonância dentro de mim. O primeiro pensamento que me veio beirava um julgamento… então voltei-me para mim, chamei a mim mesma e me disse: observe!

 

Com essa proposta a mim mesma, deixei a frase viva, ressoando e comecei a minha pesquisa… quando então, hoje de manhã, após minha meditação contemplativa, lembrei de um retiro de Comunicação Não Violenta que participei há anos… onde a facilitadora havia trazido como uma regra para o grupo que lá ninguém pedia nada para o facilitador, por exemplo, não pedir para ir ao banheiro ou coisas assim…

 

Fiquei reflexiva sobre aquela “regra” e não tardou muito, na pausa do jantar, fui pedir algo a ela. Já não me recordo bem o que era, mas tinha a ver com algo que, em minha compreensão, poderia impactar no funcionamento do espaço que convivíamos, quando então ela me disse: “Não tem que me pedir nada.” Senti uma certa revolta e desamparo que me marcaram. Pensava: “Como assim? Ela não percebe que isso (minha ação) pode impactar o grupo?”

 

Pois é… em que pese ter tido lampejos do que aquilo significava ao longo do retiro, levei anos para perceber do que realmente se tratava… e foi a observação desta frase que ouvi ontem que me despertou para um acontecimento de tanto tempo…

 

Em minha experiência pessoal e profissional, trabalhando com o desenvolvimento de pessoas e de organizações, percebo que não é incomum acreditarmos que precisamos de permissão do outro para fazermos algo, seja no dia a dia das relações pessoais, seja no trabalho. O que estou descobrindo com minha pesquisa é: isso não passa de CRENÇA.

 

O que precisamos é reconhecer que temos o Poder de fazer qualquer coisa e então lidar com as consequências da escolha do que fiz, mas de fato o poder só é do outro se eu entrego a ele e deixo de viver a minha vida assumindo minhas escolhas e a consequência dos meus atos.

Isso em si pode ser uma escolha, mas o que parece importante é que ela seja consciente, ou seja, que eu saiba que estou optando por entregar esse poder ao outro e aí não vale reclamar das decisões do outro. Foi minha escolha.

 

O que percebo que pode nos ajudar a tomar mais consciência do nosso Poder e nos apropriarmos dele é o uso de uma Comunicação mais compassiva comigo mesmo e com o outro, pois a outra CRENÇA que ainda vivemos é que para um ganhar o outro tem que perder.

 

Como fazer isso?

 

  1. Autoconhecimento: se não tenho um hábito cada vez mais constante de olhar para mim (e isso não é só em retiro no meio da natureza… precisa ser diário… no escritório, no meio da Marginal com engarrafamento e tudo… com sol ou com chuva...), não me dou espaço e tempo para reconhecer o que penso, o que sinto e o que preciso. É no dia a dia e observando a si mesmo através do que é real, através da minha alma e de quem eu sou que posso começar a fazer escolhas mais conscientes.

  2. Autodesenvolvimento: uma vez que olho para mim, preciso escolher: o que quero para mim? Todos temos diversas sombras que podemos alimentar ou transformar. Não olhá-las, as alimenta. Reconhecê-las, aceitá-las e integrá-las, transforma. É uma questão de perceber que há coisas materiais e mensuráveis sim, técnicas, em que preciso de conhecimento, mas também preciso de desenvolvimento emocional, senão fica difícil assumir as consequências de minhas escolhas e ações. Preciso também de desenvolvimento espiritual, que me dá suporte para reconhecer quem eu sou de verdade e ter força para olhar para tudo isso.

  3. Autenticidade + Cuidado: facilmente caímos em uma das polaridades… ou dizemos toda a verdade doa a quem doer… ou: “acho melhor deixar para lá… isso pode dar uma confusão...”. Pois é, a questão é que nenhuma das duas posturas me ajuda a agir no mundo. Na primeira, me isento da responsabilidade e normalmente julgo o outro. Acho apenas que tenho que expor e o outro que lide com isso. Na segunda, não ajudo o meu autodesenvolvimento nem o do outro e uma situação indesejável vai se perpetuando até que alguém estoure… então temos a CNV: posso dizer para o outro, a partir do meu autoconhecimento, como uma situação me impacta e posso perguntar ao outro: Como é isso para você?

 

É isso. Minha “realização” do dia foi juntar todas estas coisas e ter percebido que anos atrás poderia simplesmente ter exposto a minha necessidade e perguntado: Como é isso para você? Esta pergunta mágica poderia ter aberto o diálogo e possibilitado soluções criativas de ganha-ganha-ganha. Tudo o que buscamos hoje em dia, não é?

 

Se peço ao outro, deixo de agir se ele diz não ou deixo de assumir a responsabilidade pelo impacto da minha ação, afinal de contas, o outro deixou…mas se, com o auxílio da Comunicação Não Violenta, olho para meus pensamentos, sentimentos e necessidades e busco um caminho para atendê-las que, através da pesquisa e do diálogo, me permite compreender o impacto que causarei e então decidir, isso me ajuda a ter mais consciência, e poder mais.

por Gleice Marote

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